Robert: “Quando leio um roteiro, depois de algumas páginas, sei como interpretar.”

Robert Pattinson concedeu entrevista reveladora para Philippe Azoury, editor-chefe da Vanity Fair francesa, em sua edição de novembro! Nossa equipe traduziu o artigo na íntegra e também já disponibilizou os scans da revista cedidos por Maya Fortino, nossa tradutora e transcript. Por favor, não reproduzam sem dar os devidos créditos! Confiram a seguir:


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Era o início de 2020, em Paris. Robert Pattinson estava passando pela cidade. Entre dois ensaios fotográficos, ele participou de um desfile de Kim Jones para Dior Homme e tirou um tempo para responder as perguntas de Philippe Azoury. O ator falou com ele sobre cinema, sua profissão e o caminho que percorreu para gerenciar uma carreira que o levou de Crepúsculo a Tenet e o Batman, seu próximo filme, anunciado para 2022.

O DEVER de surpreender

Robert Pattinson observa Paris de canto de olho. Nós estamos em um final de tarde de 17 de janeiro de 2020, mas a cena parece ser do século passado: Ele está usando uma jaqueta de lã que o mantém aquecido e puxa um cigarro eletrônico muito animado. O terraço do Hotel Bristol tem vista para a Champs- Elysées. Daqui ele pode ver o Louvre, e do outro lado, o Orsay. Ele está parado ali há cinco longos minutos e, estudando bem, nesse momento há algo muito Batman, o herói melancólico, observando do edifício mais alto de Gotham City. Robert contempla Paris como um morcego, mas ele ainda não sabe que símbolo é tecido por trás deste morcego. Ele pensa provavelmente nas poucas semanas que o separam do início da gravação de The Batman, marcadas para o final de fevereiro. Ele pensa em treinar para ter o corpo de um cavaleiro das trevas salvador do planeta, e não de um manequim. Esta preparação já está em atraso, sem dúvidas devido ao cansaço acumulado nas filmagens de Tenet (filme de Christopher Nolan) que duraram seis meses e só terminaram poucos dias atrás.

“The Batman também será gravado em seis meses. Começamos a gravar o filme do Nolan em março de 2019 até meados de novembro. No dia seguinte já fui aos ensaios de The Batman, tive treinamento físico, experimentei o traje… Ao todo, eu tive dois dias de folga. ”

Robert ainda não sabe que, sendo o Batman que ele é, ele acabará também pegando o Covid – doença de transmissão desastrosa e sem precedentes de morcego em morcego. Ele vai contrair o vírus em setembro e a filmagem deste filme dirigido por Matt Reeves, com Zoë Kravitz, Paul Dano e Jeffrey Wright, terá que parar uma segunda vez (após uma pausa em Março devido à pandemia) enquanto o primeiro teaser trailers já foi lançado ao mundo. Sombrio, ansioso, febril. Exatamente como se, desde Tenet, Robert Pattinson decidiu se especializar em filmes espetaculares e assombrados em um mundo à beira do colapso. Obviamente, é fácil para nós dizermos isso em 2020, depois de um ano em que o tempo e a vida foram destruídos. Mas nós não estávamos assim em janeiro, quando a atitude despreocupada e a consciência estavam dia, mesmo que estivéssemos a apenas um bater de asas do desastre. E Robert Pattinson ainda não é essa reencarnação que esperamos do popular e trágico Batman. Não. Ele tem apenas 30 e poucos anos, nascido em Londres (ele ainda mora lá), um jovem de beleza lúcida e/ou angelical. Ou um cara que pode estar entre o mais humano do circuito, provavelmente porque gosta, ele é lembrado como um cara normal, desesperadamente normal. E se esse fosse seu luxo principal? Ser mais que uma estrela: ser uma estrela que reivindica sua cota de realidade. E se fosse essa sua primeira semelhança com Batman, o único super-herói que não tem superpoderes, o único que, sob o disfarce, a carapaça, a imagem, é apenas um humano, um humano muito humano? Nesta tarde de janeiro, porém, com esta jaqueta, é no trompetista Chet Baker que Robert Pattinson nos faz pensar. Mistura de perigo e beleza nítida. Um pouco de solidão também. “Fui chamado para um projeto muito sério em torno de Chet Baker” , diz ele.

Eu li muito sobre sua vida, revisei “Let’s Get Lost” (Vamos nos perder) (o filme que Bruce Weber dedicou a ele em 1988, no final de sua vida). Escutei os seus discos, estudei a sua voz. Quando você mergulha a você mesmo nessa vida caótica e triste – nós estamos falando de um trompetista que perdeu seus dentes porque ele devia dinheiro a traficantes e foi forçado a reaprender seu instrumento como um iniciante -, você primeiro quer tocá-lo.

Ele é um personagem trágico e bonito, Chet. Mas é complicado incorporá-lo/encará-lo. O cara é tão legal, que ninguém, absolutamente ninguém no mundo, pode performar/executar Chet Baker tão bem quanto Chet Baker, quanto ele interpretou Chet Baker. Este é o típico caso de um homem que é o melhor ator de si mesmo.

Eu não posso competir com isso. Você acha que ele foi morto em Amsterdã? Nós dizemos isso. Isso nunca foi realmente, de fato, esclarecido. Ele devia muito dinheiro e nós teríamos o empurrado. É plausível. Ele também poderia muito bem ter caído da varanda do hotel, perto da estação de trem e da luz vermelha, então ele estava drogado com heroína.”

“O cara era um paradoxo, resume Pattinson. Ele parecia tão perfeito – tão “saudável” eu vou dizer, enquanto nós sabemos que ele era, literalmente, um veneno para tantos, não podemos mais contar o número de pessoas do jazz que ele envolveu com heroína na época. Como nós podemos ter aquela voz angelical, que se assemelha ao divino, e ser tão ardiloso? Esses eram o tipo de questões que eu pensei enquanto considerava se deveria ou não interpretá-lo. Nós não conseguimos evitar de querer traçar um paralelo com sua própria perfeição.

“Você é perfeito, Robert?” ele muda sua voz para mais aguda, uma cobra ou de uma criança, e responde: “Sim, eu sou perfeito e eu sou vazio. Perfeito e vazio!”. Ele completa rindo.

Não há cheiro de pólvora ou perigo no rastro de Pattinson. No máximo um pequeno aroma de maconha, em dias de folga, o que imediatamente lhe dá o ar de uma eterna festa estudantil, fumando em Amsterdã. A beleza venenosa que pode ser revelada na tela, ou na frente das lentes, transformar-se na vida – é divertido assistir – em uma grande doçura juvenil.

Exercitando constantemente um assassino de segundo grau, ridicularizando, de fato, os momentos em que teria a vulgaridade de bancar o astro.

Muitas vezes temos a impressão de que há dois Pattinson, o arcanjo pop que causa confusão nos filmes e, de costas para isso, um jovem em pessoa que, felizmente, demonstra ser cinco anos mais novo que sua idade.

Você tem a idade de Cristo…

“Sim, tenho 33 anos … Este ano será, portanto, o ano da minha ressurreição. Não, vamos falar sério por um segundo: há algo estranho na minha relação com a idade. Desde os 30 anos, passo meu tempo dizendo que estava na casa dos 40, é bom envelhecer, ver projetos diferentes me afastando daqueles da minha juventude vampírica. Também o prazer de me sentir mais estável a cada dia. Sim, eu estava ansioso para envelhecer.”

Quando você entrou na indústria cinematográfica?

“Quando eu tinha 15 anos. O que significa que passei exatamente metade da minha vida nisso. Eu era criança, depois me tornei ator. É tão estranho. Eu entrei nesse ramo quase que por acidente. O primeiro papel real já era pura loucura: eu tinha 15 anos quando atuei em Harry Potter. 15 anos … Antes disso, eu era modelo e tentava fazer filmes por quatro anos, por iniciativa da minha mãe. Eu atuei naquele filme, Vanity Fair, mas acabei sendo cortado na edição, o que não era um bom começo. Então houve Twilight, por quatro anos em tempo integral, de 2008 a 2011. Quatro anos … apenas quatro anos … e teve um impacto muito grande, muito repentino … Eu tinha 21 ou 22 anos quando o primeiro Twilight foi lançado. Se eu estivesse deitado sozinho em um sofá agora, poderia ver cada momento novamente. Não há um segundo da loucura de Twilight que eu não me lembre. Mas muito rapidamente, por volta dos 25 anos, eu senti que não poderia ir mais longe em popularidade. O jogo estava sendo jogado em outro lugar para mim; com o desafio de me tornar um verdadeiro ator, por exemplo. ”

Você gostou desse momento? É que eu não consigo entender quando você fala disso…

Sim, eu gostei, principalmente porque tudo aquilo foi muito acidental. O prazer foi tão intenso que ele não era, para mim, guiado por nenhuma ambição do tipo “ser o mestre do mundo”. Com a idade, a ambição foi para outro lugar: atuar em filmes que eu tivesse vontade de assistir. Quando eu fiz Good Time com os irmãos Safdie (2017), ou High Life (2018) com Claire Denis, eu soube que começava a me aproximar de mim mesmo.

Eu digo que existe um ator que finalmente se molda nos planos desses filmes. E eu tenho vontade de chegar ainda mais longe. Isso me faz me preocupar menos se esse ator será tão popular quanto o Pattinson de Twilight. De certa maneira, nós conhecemos a resposta: não. Não dá para chegar tão longe, e além disso, não é a motivação. Não será, pois um homem de 33 anos não causa mais a mesma febre entre um público adulto. É uma relação mais consciente, menos histérica e menos fetichista. Minha visão sobre a carreira é simples: eu assisto a muitos, muitos filmes, principalmente à noite. Alguns me animam tanto que eu chego a escrever e-mails às 3 horas da madrugada para quem os fez para dizer que eu tenho um “desejo de atuar no lugar deles”. Aqui está, meu luxo.

Nota: Nós podemos testemunhar que vimos um jovem diretor espanhol, que morava em Berlim e que trabalhava como garçom em um restaurante vegetariano, enquanto esperava para financiar seu primeiro projeto de longa-metragem, receber numa noite uma mensagem que ele inicialmente pensou ser falsa. Coloque-se no lugar dele: Pattinson tinha acabado de ver seu curta autofinanciado visto em uma micro plataforma independente e disse a ele como ficaria feliz em acompanhar o resto de sua carreira.

Quando você chega ao set de um filme independente, sua atitude ainda é a de uma estrela adulada?

“Não, muito pelo contrário. Tornei-me um amador que tem que reaprender tudo, começar do zero, esquecer o que sabe, quem tem que ouvir. Se eu viesse como uma estrela, com muita condescendência, me intrometer em um projeto menos espetacular para ganhar um pouco de crédito artístico, perderia a aproximação, mas também a chance de ser recebido em filmes exigentes antes dos quais não há sistema estelar que conta mais. Pelo contrário, é preciso ser humilde diante das pessoas que fazem o cinema progredir ”.

Você tem medo de filmar?

“É difuso. Quando leio um roteiro, geralmente, depois de algumas páginas, sei como interpretar. A ansiedade geralmente começa exatamente um mês antes das filmagens. De repente, minha confiança some. É substituída pela dúvida. Não tenho mais ideia de nada, de como devo fazer, até o momento da filmagem.”

Quantos dias você precisa para encontrar o personagem?

“Não há regra. Depende do que posso encontrar dentro de mim. O maior perigo na minha vida diária seria não me sentir animado com o que está ao meu redor. Ainda é na minha própria vida que poderei encontrar os elementos para refinar minha técnica. Essas coisas muitas vezes são muito íntimas, às vezes são até sonhos que eu invoco para poder representar a cena da maneira que acho que deve ser feita. ”

Você pode me dar um exemplo?

“Para começar, o Batman, estou usando coisas no momento que parecem frágeis em comparação com a importância do projeto. Conversas que tive com amigos próximos, cenas de sonhos. Essa é a parte secreta e sensível do ator frente ao peso do projeto. No Batman, em Tenet, uma equipe gigantesca de técnicos cerca você e quando você diz: “Vamos, Robert … Ação!” você tem que esquecer essa massa de pessoas e atuar na frente de seus próprios pensamentos, seus próprios demônios. Sim, tenho a empolgação de um ator em enfrentar a tensão do set, a expectativa desordenada de todas essas pessoas e transformá-la em um diálogo entre mim e eu. É uma sensação emocionante e horrível ser aquele “merdinha” que arrisca desperdiçar toda a artilharia pesada, toda aquela infraestrutura de guerra, porque não conseguiu fazer direito… Eu penso nisso, alguns dias antes da filmagem ”

Você ainda consegue se surpreender?

“Inventei uma pressão que acabou me enlouquecendo. E eu gosto. O dever de surpreender, meu público e acima de tudo eu mesmo, tornou-se o único desafio que vale a pena. E é muito mais difícil, acredite em mim, do que o desafio de bilheteria. Com O Batman e o Tenet, você sempre pode dizer que estou tentando voltar àquelas alturas – estamos falando de milhões de ingressos. Mas Tenet também é um filme experimental. Quanto ao Batman, primeiro olho para o personagem e o que tenho a ver com ele, como terei que inventar nuances nesta concha, tornando-a mais complexa, cada vez mais complexa. Batman é um papel em que tenho que aprender a interpretar melhor a ambigüidade. Está fora de questão interpretar um personagem de uma única cor. É lindo, pessoas que parecem viver de duas maneiras ao mesmo tempo. E então, imagine: você adora cozinhar e depois de anos consegue obter o prato perfeito, o mais saudável, o mais equilibrado, o mais saboroso, o mais sutil; você honestamente comeria em todas as refeições? Não! O que você sonharia secretamente? Em comer um bom cheeseburger gorduroso, ah ah ah ah. Ele deu uma longa tragada em um cigarro em silêncio e se perdeu no panorama. Você sabe, quando filmamos O Farol, fiquei louco sobre onde estávamos filmando. O farol, nada ao redor, pedras. No filme, é suposto representar o próprio inferno, o precipício para a loucura. Eu realmente queria ir de férias lá. Simplesmente porque amo a solidão. Eu amo tanto que não saio do hotel quando estou filmando. Por semanas a fio, trancado no meu quarto. Eu assisto filmes, fico horas olhando pela janela, o balé das pessoas andando nas ruas ”.

Que conselho, Robert Pattinson, o homem, daria a Robert Pattinson, o ator, a lenda?

[Silêncio] “Eu não tenho ideia. Provavelmente porque eu nunca fiz uma separação entre mim e o ator. Não acredito na sua versão de que existe um verdadeiro eu e a estrela. Pelo contrário, acredito que tentei reduzir a distância entre minha pessoa privada e a pública. Claro, quando me vejo na capa de uma revista, não posso dizer a mim mesmo: “Ah, aí, sou eu mesmo.” Mas estou procurando coerência. E isso vem do desejo de ser eu mesmo, tanto quanto possível, enquanto tento explorar personagens que não são eu. Meus papéis não são como eu. Eles não são nada como eu. Não me perturba muito. À minha volta, alguns amigos atores estão preocupados com a forma como são percebidos externamente por causa de seus personagens. Eu não estou. O que me incomodaria seria fazer a mesma coisa indefinidamente. Sempre os mesmos papéis, os mesmos filmes. Sempre o mesmo Pattinson. ”

O que a modernidade significa para você?

“É uma questão de adaptação. Tudo se move muito rápido, tudo está sempre à beira do caos. Mas não devemos ter medo diante dessa velocidade. E então, há uma certa beleza em contemplar o caos, não é?”

Tradução: Maya Fortino, Amanda Gramazio e Reh Cegan

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